Diário de uma L Viajante - 3

Terceira parte do Diário de uma L Viajante


13º dia 06/02/07

            Deitei na cama às 6 e acordei às 10, tomei um café e arrumei minhas coisas para partir. A Kah me deu um sapo de pelúcia com o perfume dela impregnado nele e sem ela ver, eu deixei meu bem mais precioso escondido no meio de revistas e folhas no armário dela, minha pasta de desenhos, com minhas mas valiosas artes. Ela me acompanhou até perto da estação do metrô, achando que eu iria mesmo entrar, segura eu disse pra ela voltar, que dali eu iria sozinha.  Acho que se deixasse ela entraria no metrô comigo. A despedida é sempre a parte mais difícil de uma viagem. Eu fui em direção a estação e ela para casa dela, quando já não avistava mais ela, dei meia volta e comecei a perguntar como fazia pra chegar na BR. Cada um me explicava de um jeito diferente e me chamavam de louca, só porque disse que estava a pé. Fui perguntar numa padaria ali perto e o carinha do caixa disse que o chefe dele tava indo pra lá, nossa, tenho sorte para mais de metro. Peguei uma carona até um posto perto da BR e por lá comecei a falar com os caras que ficam vadiando, falei com os motoristas de uns caminhões que estavam lá parados, mas nenhum estava indo para Vassouras, porque nem na BR não fica, tem que ir por umas estradinhas e tals.

            Então fiquei conversando com os vadios por um tempo, até decidir o que fazer. Foi ai que conheci o Gordo do reboque, ele ficou indignado com a minha história e me chamou para almoçar. Pôxa comi pra caramba e tomei coca-cola. Voltamos ao posto e fiquei lá tentando carona e matando tempo, ele até me emprestou o telefone para eu ligar para Selene, dizer que iria chegar um pouco mais tarde. Ele comprou sorvete para mim, e depois tirou R$ 2,00 do bolso, deu para o cara que estava do nosso lado e disse: 'trás uma H2O ai pra gente'! Não acreditei... o cara era tão ignorante que chegou ao ponto de perguntar o que era uma H2O, quando eu disse que era água, ele: 'a ta'. Fiquei ali vegetando até umas 4 da tarde e sem carona, foi então que o Gordo do reboque tirou R$ 20,00 do bolso e me disse: 'Pega o Piracambi nesse ponto, vai até a rodoviária e de lá você pega outro que vai para Vassouras'. Fiquei de cara! O Gordo me deu tchau e foi para casa tomar um banho. Fiquei no ponto um tempão, até pensei que não tinha ônibus nenhum, depois de uns 40 minutos esperando, o ônibus passa e quase perdi, porque ele não parava em todos os pontos. A passagem custava R$7,50. Fiquei lá do lado do motorista ouvindo musica no mp3 da minha irmã, em uma hora já estávamos em Paracambi, uma cidadezinha que nem 5 mil habitantes deve de ter. Desembarquei na rodoviária e sai perguntando como eu chegava em Vassouras. Entrei em outro ônibus que iria direto para Vassouras, eram uns 4 e pouco a passagem, ainda me sobrou grana (Oba!)
            Adoro ficar com essa musica na cabeça o tempo todo:

"Eu fico me perguntando até aonde eu posso chegar
Os desafios, que no caminho eu irei encontrar
Pra enfrentar a vida, nunca pensei que fosse assim
Mas não importa, não há barreiras vou até o fim
Um plano misterioso...
Agarro um sonho e vou, eu vou procurar
Sigo em frente é meu destino não importa o lugar
Coragem eu terei, e nada por me deter eu vou, sem medo de nada
E eu enfrentarei, e derrotarei, todo aquele que for mal
Não descansarei, coragem eu terei
E nada pode me deter... eu vou, sem medo de nada!"

            Eram umas 6 e pouco e o ônibus sai 15 para às 7. Fui de Paracambi até Vassouras lixando a unha e ouvindo música. Passamos por muitas estradinhas, havia muito verde, o ar era puro, dava até gosto de respirar, muitas vaquinhas pastando. Demorei uma hora e pouco para chegar em Vassouras.  Falei com o motorista (motora) para me avisar quando estivéssemos no ponto mais perto da Universidade, (quando fala em Universidade, ate dá de pensar que é uma cidade grande né?), no fim, o ponto mais perto era a rodoviária. Como a cidade é pequena todo mundo sabia onde era a faculdade, coloquei o mp3 no ouvido e comecei a subir um morro escuro e sem habitantes, nessas horas gosto de segurar o pingente de memória RAM que tem no meu pescoço, ele esta sempre comigo e a munhequeira que a Karou’e me deu também. Então fui seguindo as placas até entrar numa rua que nem parecia pertencer á cidade, era muito movimentada, muitos bares e muita gente bebendo. No fim da rua ficava a faculdade (USS), quando cheguei bem na frente da faculdade, tinha uma menina que se parecia com a Selene, fiquei olhando sem ter certeza se era ela, foi quando ela abriu um sorriso e veio na minha direção (hum... agora sabia que era ela). Nossa, ela tava de jaleco, até parecia alguém importante, ela me deu um puta abraço, toda feliz e falava um monte de coisas sem parar, me perguntava mais um monte de coisas e tals, que empolgante!
            Descemos até a metade daquela rua movimentada, entramos num beco (dizia ela que ia me levar para comer um cachorro quente muito bom) e disse: 'nós não fizemos o que falamos que iríamos fazer quando nos encontrássemos!' Nossa eu estava tão feliz por estar ali que tinha até me esquecido o que era e ela torno a dizer: 'Lembra que a gente disse que iria se beijar antes de qualquer palavra?' aí que me recordei e perguntei:
- Aqui?
- Claro! 
E eu fui sincera quando disse:
- Mas eu tô desde o meio dia sem escovar os dentes, não vou me sentir bem! 
Ela insistiu:
- Não dá nada.
- Tem certeza?
- Claro!
Dessa vez ela me convenceu:
- Então tá.
            Beijamos-nos ali no beco mesmo, e ela sempre dizia na Internet que adorava meu piercing de boca e queria muito mordê-lo. Cara, os seres humanos da terra são muito estranhos, às vezes não os entendo, mas tento compreender. Agora sim fomos à barraquinha para comer o cachorro quente e tinha bastante gente na fila, deve ser bom mesmo. Nós duas pedimos sem ervilha (evito comer ervilha, faz mal para o cérebro), fomos sentar em uns banquinhos da praça para comer, ficamos conversando pra caramba e puta merda, que 'dog' gostoso, nem o do meu pai fica assim! Ela me contou que naquela praça tinha sido filmada a mini-serie 'Presença de Anita', foi ai que me liguei que era mesmo, tinha até a sacada de onde ela morava, que animal. Ficamos conversando e nos beijando, como a cidade é pequena, as pessoas ainda ficam olhando e apontando, é muito divertido, fora que tinha um bando de caras com uniforme do fluminense lá parados no outro banco, fico eu imaginando o que eles pensam.
            Ela me levou na casa de uma amiga dela que mora em república, eu iria dormir lá, pois ela mora em Valença (cidade vizinha), e na casa dela não tem espaço. Para mim esta valendo tudo depois da noite em Curitiba. Cheguei lá, eram 3 meninas e lá vai eu responder as mesma perguntas... 'você veio de carona mesmo?' 'e seus pais?' ninguém te atacou na estrada?' 'quantos anos você tem?' 'você estuda?' 'tem namorado?'. Azul de responder as mesmas coisas e até já sabia as perguntas. A Selene foi pra casa dela e disse que no dia seguinte lá pelas 8 ou 9 ela estaria lá para me levar com ela para a faculdade.

14º dia 07/02/07

            Acordei com a Selene me chamando de 'xuxu', caralho, pavoroso, nem minha mãe me chamava assim quando eu era bebê, mas tudo bem, eu perdoo. Ela me levou para conhecer a cidade, andamos um bocado, eu com aquela mochila levinha nas costas, em baixo daquele sol... Fomos até um lugar lá de fisioterapia ou sei lá o que, ela me falou uma porrada de coisas sobre anatomia, o corpo humano, acupuntura, nunca fui muito boa nessa área, mas consegui entender algumas coisas que ela dizia.
            Deixa eu descrever um pouco ela... Magricela, cabelo curto, um tanto tímida, tem 19 anos, é monitora de anatomia remunerada, inteligente, toca bateria e também é campeã brasileira de karatê. Menina foda né? O que falta nela é saber se expressar melhor, falar as coisas quando tem vontade, é o que eu acho.

           Sentamos um pouco na praça, ficamos um tempão lá viajando e depois fomos para a faculdade, comemos X-salada (adoro). Ganhei uma foto dela tocando guitarra, estou colocando tudo na última folha do diário, tem uma foto da Kah quando era criança também, maior lindinha. Putz, quando fomos ao banheiro escovar os dentes, lembrei que esqueci minha escova de dentes na casa em que dormi na noite passada, estou esquecendo muitas coisas para trás.
            A Selene me levou no bloco de anatomia, subimos até o terceiro andar e como ela tinha dito, me fez uma massagem. Ela não é uma excelente massagista, mais dá para o gasto. Dai ela começou a executar uma técnica de estalar a pessoa, meu pescoço foi estalado de todos os lados e de todos os jeitos. Fico indignada quando as pessoas fazem massagem em mim e eu sei que posso fazer melhor! Pedi para ela deitar e ver com é uma boa massagem.
            Estava na hora da aula dela, me emprestou um jaleco branco e pediu que eu fosse com ela até onde estavam as peças (bando de pessoas mortas, com o corpo conservado para estudos). Nunca tinha entrado num lugar desses, pavoroso. Ela ia mostrando o rim, o estômago, as mãos, os pés, o crânio... Ela colocou algumas peças na maca e levou para sala, para mostra aos alunos. O que mais me espantou foi o tamanho do útero, pensei que tivesse pelo menos uns dez centímetros, mas não, tem no máximo uns cinco. Depois da aula conheci uma porrada de amigos da Selene e ela fazia questão de contar para todo mundo que eu estava viajando de carona, até parecia que ela gostava de ver as pessoas olhando para mim e me chamarem de louca. O sol estava se pondo, peguei os óculos de sol da Selene, até que ele fica bem em mim! Conversamos com uma amiga dela, que faz psicologia. Ela é meio gordinha e muito gente boa. Ela falava de livros legais, disse que respeitava muito os homossexuais e também estava com problemas com o namorado. Foi legal conhecer ela!
            Não tínhamos nada para fazer, então fomos para aquela rua movimentada (Broadway), ainda era cedo e não tinha quase ninguém na rua. Conheci a Estela, uma das amigas gay da Selene, ela tem os olhos claros, o maxilar bem quadrado, cabelo liso e um corpo massa. Ela olhou para mim e disse:
- Você parece com uma menina que eu conheço.
 Eu respondi:
-Normal, sempre quando alguém anda por ai sempre encontra alguém semelhante, não é a primeira que me fala isso.
E ela tornou a fala:
- Pois é, mais pode deixar que eu vou lembrar!
            A Estela faz o perfil da Tina do TLW, acha que os relacionamentos têm que ser firmes e cheio de amor, ela estava com uma garota de Valença há não sei quantos anos e dai deu um monte de rolo, agora está com outra, só que ainda chorando pela 'ex'. São meninas de pensamento ingenuo!
            A Selene me pagou uma hora na Net, na verdade eu tinha dito que queria entrar na Internet, mas eu ia pagar, tinha sobrado a grana que o Gordo me deu!     Falei com a Kah, com o Leone e com o Rah, nossa, que saudades de um micro, eu disse pra Kah que tinha deixado um presente, ela disse que já tinha achado a pasta com os desenhos dentro e disse que tinha a foto da minha 'ex' (hahahaha). Ex? EU não guardo foto de ex porra nenhuma, pedi para ver a foto pois não estava lembrada. Hum, era a foto da Greice, uma das minhas melhores amigas dos últimos tempos, ela era quase minha mãe, agora ela está em Cascavel, no Paraná!  Avisei o Leone que logo eu estaria chegando lá, tadinha das pessoas, nem falo o dia certo que vou chegar na casa delas, devem levar o maior choque!
            Já estava anoitecendo, precisávamos achar um lugar para eu passar essa noite.  A Selene saia perguntando para todos os amigos dela e tals. Acabamos falando com o João que tinha um amigo e que eu poderia dormi na casa dele. Até essas alturas, nós já tínhamos bebido um pouco, deixamos as nossas mochilas no carro do João e fomos beber mais. Só na cerveja e no cigarro, conhecemos um cara muito louco, trocamos altas idéias e a Selene como sempre, contou a minha história para o cara, foi aí que ele convidou eu e ela para participar de um quadro na rádio dele no dia seguinte, eu aceitei e a Selene também, ficou marcado para amanhã de manhã às 9:00hs.
            Encontrei com a Estela novamente, estava bebendo e eu falei para ela que achava que tinha o perfil parecido com a Tina e ela me disse: '
- A, lembrei, lembrei! Você lembra a Shane do seriado TLW.
             Pôxa, já estava eu toda feliz com o convite para a rádio e ela me fala isso... só faltava eu voar agora.
            Convensamos um monte sobre o seriado, ela só tinha assistido até a 2º temporada, ai eu ia falando da terceira, nós duas toda empolgadas falando do seriado e a Selene chega e diz que tem que ir embora, pois o último ônibus para cidade dela já estava saindo. Fiquei lá curtindo a noite do lado do cara que eu ia dormi na casa ( o amigo do tal João). Fiquei ali por perto bebendo, foi quando um cara moreno veio me pedir fogo, se eu não percebesse que ele era gay eu podia me matar na mesma hora, ok, emprestei fogo e vi que ele estava com uma menina na mesa! Continuei bebendo, fumando e conversando com os caras. O moreninho veio de novo e me dirigiu a palavra: 'Ei, aquela minha amiga ta afim de ti'. Eu bem de boa fui até a mesa, cumprimentei a garota, sentei ali, filei um cigarro dela e ficamos um tempão conversando. Puta que pariu, adoro caras gay como ele, são o máximo para conversar, acho eles muito lindos. A garota (não lembro o nome), estava com receio de beijar outra garota no meio de todo mundo e o gay só colocando pilha: 'duvido vocês darem um selinho', depois: Duvido dar um beijo mais demoradinho' e perseguiu: 'um beijo de língua'! Nós ficamos ali na frente de todo mundo, no meio de todos aqueles heteros, depois fomos lá perto da praça, ficamos um tempo lá e logo voltei, pois não sabia que horas o cara da casa onde eu iria dormir ia embora.
            Entrei no carro, e fomos ele, um amigo dele e eu em um posto, bebemos e fumamos mais ainda, quando cheguei na casa dele, puta que pariu (vezes cinco mais sete), era uma mansão, tomei um banho dos deuses, que chuveiro bom, escovei os dentes com a escova dele, sei que pode parecer nojento, mas era pior ficar sem escovar! A cama era macia, os lençóis limpos, o travesseiro parecia de pena... Bêbada, dormi como anjo!


15º dia 08/02/07

               O garoto que não lembro o nome, acordou comigo as 8:30hs, tomamos café e depois ele me levou na frente da faculdade onde estava a Selene me esperando para irmos na rádio. Chegando lá, a primeira coisa que fiz foi pegar um copo de água e logo em seguida outro (deve ter sido porque bebi um pouco de mais ontem). Entramos no estúdio e ficamos lá conversando e ouvindo umas músicas, até a hora que começou o programa do cara. O tema era pra ser ‘vizinhos’, porém acabou virando a minha viagem e a inteligência da Selene.

            Quando ele atendia o telefone a primeira coisa que ele perguntava, era se a pessoa teria a coragem de sair pelo Brasil assim como eu, sem dinheiro e de carona. A maioria das pessoas disse que teria a coragem de fazer isso, desculpe-me, mas eu duvido, as pessoas são animais e gostam de ter certeza do que vão comer amanhã e de onde vão dormir, são poucos os que se aventuram assim. Depois disso ele perguntava se a pessoa era tão CDF como a Selene na escola. Nossa todos eram muito corajosos e muito inteligentes. Eu só na água o tempo todo, sequei a garrafa de água. O cara conseguiu para mim um almoço e um lanche da tarde com os ouvintes. O outro cara que trabalhava na rádio, na área de noticias, colocou a minha história nas notícias, muito alienígena!
            Saindo da rádio fomos direto ao restaurante almoçar, a Selene é bem rapidinha, saiu sem pagar também! Ela me levou pra comer açaí, só porque eu disse que nunca tinha comido. Não achei nada de mais, é tipo um sorvete de sabor diferente que se come com a colher. Quando começou a anoitecer, a galera começou a beber lá na Broadway, encontramos uma tal de Tavi, ela mora em república com mais uma menina, nossa, essa Tavi é muito linda, ela me lembra a minha prima Rafaela! Bebemos um pouco e fomos para a casa dela. A guria que mora com ela se chama Roberta, é meio gordinha e muito gente boa, ri muito com elas. Nem chegamos direito e elas já olharam para o céu e disseram que estava estrelado, uma linda noite pra fumar um Beck (sempre lembro da Karou’e e a da Fer)! Perguntaram se eu fumava, bom, às vezes sim!
            Elas fecharam três Becks, no final do terceiro eu estava rindo da minha própria mão em movimento, estava sentindo até bichos que não existiam subindo pelo meu corpo, muito hilário, o foda foi que minha pressão baixou e logo dormi.

16º dia 09/02/07
       
             Acordei às duas da tarde, eu estava precisando tomar um banho e lavar minhas roupas, porém  estava com uma moleza... bom, pelo menos vou tomar um banho. A Selene logo chega para gente sair e ir não sei onde.

            A Selene trouxe as baquetas dela e os óculos e também uma camisa do Linkin Park, tentei aprender uma batida com as baquetas, mas não deu muito certo, ficamos o dia todo lesando lá no quarto com a Tavi e a Roberta. Não fomos a lugar nenhum! Fumamos um Beck e ficamos lesando lá (caraca, lembrei de novo a Karou’e e a Fer). Um amigo ou irmão da Tavi e uma menina chegaram lá, iam dormir por lá. Eles foram lá fora, fazer sei lá o que e ficamos eu e a Selene sozinhas no quarto. Bom, já até dá para imaginar. Mas sei lá, comecei o “serviço” mas não consegui terminar, totalmente sem tesão pela menina e depois ela não tinha ido para a cama com uma mulher, só uma vez, com uma tal de Marta, só pelo que a Selene me disse, a Marta também não foi até o fim. Talvez isso tenha me retraído também, mas agora posso dizer que mulheres também brocham!
            Acabamos dormindo em um sofá-cama e nada fizemos, acho que a maconha me deixou um tanto além!

17º dia 10/02/07

        Acordei com a Selene do meu lado. Ela disse que ia me levar para Valença, a cidade dela, porém eu não poderia ficar na casa dela (a casa é muito pequena e tem um quarto pra ela e o irmão dividir). Iremos fazer como sempre, procurar um amigo dela que me dê um teto para passar a noite. Cara, acho que eu sou doida, uma lesada na verdade!

            Não lembro que horas eram, talvez por volta da 1 da tarde, só sei que fomos ela e eu de carona para Valença, uma mais pobre que a outra. Valença tem algumas construções históricas, é um lugar bem legal, mas pequeno. Passamos na casa da tal Marta, que dizem que ela é a “Shane” de Valença, eu toda feliz achando que ia ver um clone da Shane ou algo parecido, toda entusiasmada para chegar. Quando vi, veio uma menininha, de cabelo comprido enrolado, de olhos verdes, devia ter 1,60m de altura e moreninha. E para minha tristeza a Lê disse: “oi Marta”. Pensei comigo, ‘não é acreditável que essa é a “Shane” de Valença, minha irmã tem mais o perfil da Shane do que ela’, mas a guria não era de um todo feia. O pior que gosto das baixinhas, esse é um mal ao qual tenho que me desapegar. Entramos na casa dela e nossa, tem um PC e com Internet. A primeira cadeira que sentei foi a do computador e lá fiquei enquanto as duas conversavam.
            Não, não, não e não. Não pode ser, espera, acho que estou enxergado errado, falei espantada:
- Marta, você que é o fake “original” da Shane?
- Sim, sim, esse profile que esta logado ai é meu!
            Quase tive um treco.
- Não acredito que tive que atravessar quase meio país para descobrir quem era esse fake que eu desprezo! Você não tem noção, odeio a dona desse profile, acho ela uma inútil e não creio que é você. Esse mundo é pequeno mesmo!
            Ela ficou explicando qual era a moral de ficar fazendo famílias no Orkut e blá blá blá. Foda-se, não me convenceu de que isso não é inútil!
            Não ficamos muito tempo lá, porque tínhamos que achar um lugar para eu passar a noite. Fomos numa loja de calçados, que era a loja onde trabalhava a menina que conheci lá em Vassouras, a que faz curso de psicologia, gente boa e gordinha. Fomos falar com ela, para ver se tinha como eu ficar na casa dela. Pior que não ia dar, então ela disse que tinha o Hotel do pai dela. Bom, mas não posso pagar por um hotel e tals. Ai ela foi lá e quando voltou disse que o hotel já estava pago por uma noite, era só eu ir lá e pegar a chave. Porra, às vezes fico abismada como as pessoas me ajudam.
            Tenho certeza que hoje é sábado pois, subimos a Lê e eu no quarto do hotel e estava passando “O Caldeirão do Huck” (eu nem assisto TV mesmo, mas fazia tempo que não parava na frente de uma). Nossa, de novo, eu e a Selene sozinhas, viajando, ai ela fica me olhando com uma cara de tipo ‘estou aqui, você não vai fazer nada’. Típica cara de mulher passiva, só que é passiva de mais por meu gosto. Lá fui eu tentar pela segunda vez, mas não deu, até que ela estava de blusa tudo bem, pôxa, sei lá, ela praticamente não tem peitos, é quase como fazer sexo com homem. Não dá certo. Falei para ela colocar a blusa de volta, porque eu tava sem vontade. Consegui “brochar” duas vezes com a mesma mulher. Ainda fiquei fazendo piadas que é mau de “Shane”, porque a Marta também não foi até o fim! Sei lá, deve ter sido foda estar no lugar dela, tentei ser o menos desagradável possível. Logo ela se despediu de mim, pois amanhã de manhã irei embora e provavelmente não vou mais vê-la.
Puta que pariu, quase não tenho roupas semi-limpas para usar, tinha uma pia no meu quarto, peguei o sabonete que eu tinha e lavei minhas roupas. Estendi na cabeceara da cama, nas portas do armário no suporte da TV e nas correntinhas da janela. Começou a me dar fome, não tinha comido ainda hoje. A única calça jeans que eu trouxe, quase não parava mais na minha cintura e a barra ficava arrastando no chão (eu sobrevivo). Desci e fui comprar um cigarro que custou-me, R$ 3,00, o vicio estava prevalecendo à fome. Sentei em uns banquinhos em uma praça e fiquei conversando com um velhinho (eles adoram contar as experiências de vida e eu adoro escutar). Voltei para o hotel e dormi um pouco para ver se a fome passava, mas quando acordei percebi que estava tonta. Foi quando cheguei à conclusão que realmente precisava de alimento. Peguei meus últimos R$ 2,00 e fui no mercado que ficava ali perto, comprei uma bolacha e um salgadinho (Fandangos). Nada melhor do que comer quando se está com muita fome. Minhas roupas ainda estavam úmidas, tomara que seque até amanha de meio dia (hora que tenho que entregar a chave).
          Fiquei fumando e vendo TV (é ótimo ter um Carlton por perto). Do nada alguém bate na porta, (quem será? Não tenho nenhum amigo nessa cidade) é a Marta. Putz, tava minhas calcinhas penduradas, todas minhas roupas cheirando a sabonete, esticadas uma em cada canto e ela pediu pra entrar. Disse que a Selene e o irmão dela estavam ali também, que era para eu mentir para ele que eu tinha conhecido a Selene ontem, que era amiga da Marta há 5 anos e para eu me arrumar porque a gente ia dar uma volta. Ok, posso mentir sem problemas, mais creio que vou ficar sem entender o porquê.
            Coloquei minha calça que estava caindo e uma blusa (PS.: vou pegar essa Marta e sei que ela esta pensando igual, já percebi que temos pensamentos parecidos). Fomos até a casa da Selene, para levar a mochila dela, na metade do caminho liguei pra minha mãe, assim ela fica mais tranqüila sabendo que ainda estou viva. Voltamos ao centro (ninguém entrou na casa da Selene, os pais dela devem ser macabros), sentamos em umas mesas onde meu gaydar me deixou ensurdecida, mais lésbica em um mesmo lugar só na parada gay mesmo. Logo que sentei a Selene já veio do meu lado e começou a falar o perfil de cada uma.

- Marta: você já conhece, pega as meninas e depois joga fora e está solteira, um prato cheio pra você. Bruna: é meio temperamental, se ela vai com a tua cara você está feita, mas se ela não for, então é melhor manter distância. Tais: um amor de menina, toda meiga e lindinha. Cleyre: É a ex da Estela que você conheceu em Vassouras, andam meio enroladas, então melhor não tentar nada.
Mostrou outras duas e disse que elas estavam juntas.
-  Estela: você já conhece. Sacou tudo?.
Eu respondi:
- Cara, eu não sou assim como tu está pensando, não sou pegadora desse jeito e não saio dando em cima de todas as garotas.
            Ok, ela me passou o ponto de vista dela, acho que em uma noite eu tento forma minha própria visão de cada uma. Não deu uns 5 minutos e a Selene já teve que ir (realmente acho que os pais dela devem de ser um saco, porra, a menina já tem quase vinte anos na cara e ela tem que estar antes das dez em casa? Que merda). Eu ficaria ali bebendo cerveja de graça e fumando e depois voltaria bem de boa para o hotel.
            Do meu lado estava sentada uma mulher que era a cara da Aimée (uma menina que morou comigo na república em Joeinville, muitas saudades dela, muita mesmo), ela já estava além e continuava bebendo. Ela era tão parecida com a Aimée que dava vontade de abraçar até ela sufocar, até o jeito que ela fumava. A cada 30 segundos ela falava “caraleo, leo leo leo”, eu me matava de rir com ela além de ela pagar a bebida! Chegou o João e dava de ver que era gay e muito querido entre as lésbicas do grupo.
            Fazia tempo que meu coração não disparava como no exato momento em que a Bruna pegou a munhequeira que ganhei da Karou’e e disse que tinha gostado e não iria mais devolver, fora que ela queria minha corrente com o pingente de memória RAM. Quase surtei! Ela queria ficar com minha carteira de cigarro também, tá doido, ela queria acabar com a minha vida isso sim. O foda que ela não estava totalmente sã! Pelo menos me devolveu a munhequeira e ficou só com o cigarro e disse que era para ter certeza que eu iria voltar. Beleza, fui no banheiro e logicamente voltei, ainda mais pelo meu cigarro, sorte que ela me devolveu e do nada ela disse que foi com a minha cara ( isso é bom, ainda mais vindo dela). Acho que já era umas 11 horas ou mais, fomos na praça da catedral, a Marta, a Bruna, a Estela, a Cleyre, o João, eu e a Tais e uma lá que dizem que ela é... Piranha, dada, puta... Etc., etc, etc. O João fechou um baseado (de novo lembrando da Karou’e e da Fer), ele me chamou para fumar e tals, mas sei lá, não estava a fim, fiquei lá de boa conversando sobe o seriado TLW com a Marta e a Bruna. A Estela e a Cleyre estavam um tanto afastadas discutindo a relação (eu sempre digo que essa parada de ficar com a mesma menina por muito tempo, dá merda, nunca ninguém me ouvi e sempre termina assim, uma chorando e a outra vomitando de tanto que bebeu).
            A Marta começou com umas piadas, começamos a falar dos seios e um monte de merda. Depois ela me convidou para beber água na casa dela, as meninas já sabiam o que significava beber água na casa da Marta, mas eu só desconfiava, porém eu realmente estava com sede e não achei que ela fosse mesmo querer ficar comigo. Fomos até a cozinha, ela me deu um copo de água, sentou na minha frente e perguntou se eu era tímida (tímida, eu? Só pra rir né?). Minha resposta saiu espontaneamente, “não”. Ai ela veio e me beijou, sentou no meu colo e pá! Ela realmente beija como a Selene falou (beija quase a cara inteira, não é meu tipo de beijo preferido) e eu disse isso na cara dela, pois eu gostaria que falasse isso pra mim também. Ela disse que iria tentar mudar um pouco (ótimo pra mim). Eu disse para ela que não imaginava que iria dar certo “Shane” com “Shane”, ou talvez sim né? Ela disse que as meninas estavam todas “babando” por mim e que eu poderia ficar com quem eu quisesse da turma. Caraleo, leo, leo, leo, não achei que estava com toda essa moral. Dei tchau para o irmão dela que estava no PC e voltamos pra praça! Ficamos lá na praça conversando e ela se gabando de que tinha me “pegado” (pause, a real é que eu que peguei ela e não ela que me pegou, ou sei lá). Eu disse que estava indo embora amanhã, e as meninas disseram para eu ficar e tals, mas eu não tinha onde ficar, foi ai que a Marta disse que eu poderia ficar na casa dela se quisesse. Não pensei duas vezes. Depois voltei para o hotel, já eram umas 3 da manhã.

18º dia 11/02/07

            Minha roupa estava praticamente seca, tomei café da manha no hotel e depois voltei a dormir, entreguei a chave ao meio dia e fui para a casa da Marta. Bom, agora já posso tirar minhas próprias opiniões das pessoas. Marta: estuda direito, algo que eu nunca faria e não, não a acho parecida com a shane, às vezes no modo de pensar. A Bruna tem cara de atleta, mas atleta é a Cleyre, o João é o maconheiro, a Tais é a menininha meiga do grupo, a Estela é noiada por uma relação fixa. O irmão da Marta é um nerd (maníaco por PC), está sempre no PC, gosta de anime também, mas não fui muito com a cara dele. Acha-se o esperto, sabe mais do que qualquer pessoa e mesmo se não tiver razão, não dá o braço a torcer. Tive algumas discussões com ele, acho maneiro brincar de irritar as pessoas que se acham os fodas! No fundo ele é gente boa.
            Nossa, nossa, essa louca da Marta tem em DVD o seriado “You’r Americans”, um dos únicos trabalhos da Katherine Moennig (a Shane). Ficamos assistindo por horas, ainda bem que temos os mesmos gostos, o seriado em si não é muito bom, tanto que nem teve a segunda temporada. No terceiro episódio já estávamos colocando só nas cenas em que ela aparecia. A mãe dela não implica com a sexualidade dela, e pude comer comida de verdade. Depois acabamos fazendo sexo, e como sempre eu sendo a ativa, talvez eu seja mais Shane que ela. Nossa, quase que brochei, pelo de mais na "região", mas ocorreu tudo bem. É o esperado entre duas Shane’s, sexo e pronto, nada além disso!
            O irmão dela teve de ir para a aula durante a manhã e a tarde toda, me esbaldei na Net, baixei todas as paradas para legendar, baixei o episódio  6 e dá-lhe trabalhar na legenda. Falei com o Leone e peguei o endereço dele certinho e disse que amanhã eu estava indo para lá e que provavelmente chegaria a noite. Quando o irmão dela chegou e dominou o PC, nós fomos com a Bruna para uma lanchonete a tal de RG, comemos uma parada muito boa lá, de frango com batata frita e também encontrei a Selene, tadinha, está sempre em Vassouras estudando e dando aula. Depois fomos para a rua onde conheci todo mundo antes de ontem, encontramos com a Tais e com a Cleyre. Parecia que ninguém estava muito animado hoje, acabou que a Marta e eu fomos para casa, ficamos conversando e enrolando a vida, ela foi dormir porque amanhã ela tem que ir para aula, eu fui para o PC, ainda não terminamos a legenda do 6º episódio. Passei a noite inteirinha trabalhando na legenda. O irmão dela só sabe reclamar porque baixei os programas no PC, disse que ia ficar lerdo demais e que o episódio de 350 Mb ia deixar o PC mais lerdo ainda (por favor, ele tem um HD de 40, vai matar 350 Mb por um dia). Às vezes esse garoto me dá nos nervos, mas tenho que ficar de boa, pois é só esse PC que “tenho”. Tudo bem, quando eu for embora amanha é só eu remover os 3 programas (que todo Pc deveria de ter) e o episódio!



20º dia 13/02/07

          Puta que pariu, passei a noite toda trabalhando na legenda e ainda não terminamos, dessa vez  tá difícil. As meninas começaram a estudar, terminou as férias e o tempo ficou curto para fazer a legenda, a outra tá quase morrendo atolada no trabalho. 

            Está um tempo virado pra chuva, é meio arriscado pegar carona assim. Até meio dia terminamos a legenda, é tão bom ver as pessoas agradecendo quando postamos a legenda no tópico, fica todo mundo virando a noite com a gente esperando a legendar sair, maior maneiro!
            À tarde a Marta e eu saímos dar uma volta, para ver o povo. Encontramos com uma galera, depois a Marta foi para casa e eu fui para a faculdade com a Bruna e com a Cleyre  porque fiquei de terminar o desenho que estava fazendo para  a Bruna, um violão com uma nota musical no meio, ela disse que iria tatuar. Fomos lá para a faculdade, eu fiquei nas mezinhas da cantina desenhando, enquanto elas escutavam uma palestra. Tentei caprichar no desenho, porém ficou meia boca, mas ela parece ter gostado. A Cleyre pegou uma caixinha de fósforo e escreveu a data de hoje e “Valença”, disse que era para eu guardar de recordação. A Bruna comprou uns salgados e uns sucos para gente comer.
            O irmão da Marta me levou para conhecer um cara de uma LAN HOUSE, que tinha mais de 100 animes completos. Quase chorei quando o cara abriu a maleta cheia de Cd’s de anime, fiquei lá um tempão anotando os nomes de alguns animes e conversando. Bem maneiro! Meu, e dá para acreditar que dei o meu colar com a memória RAM para o irmão da Marta, o cara mais chato de toda a viagem e dei a ele um dos meus bens mais preciosos. Acho que deve ser porque ele é muito nerd e fiquei comovida. Ele adorou o colar, até que a gente começou a se dar bem, pena que agora eu realmente tenho que ir, adorei as pessoas dessa cidade, fui muito bem recebida aqui.
            Voltamos e ficamos um tempão na frente da catedral jogando conversa fora! A Tais me deu uma foto dela de recordação, escreveu umas coisas atrás, toda fofa ela!
            Lavei umas peças de roupa hoje de manhã, tá um sol muito forte, secou tudo. Passei a manha inteira no PC e de meio dia eu almocei e tive que esperar a Marta chegar para dar tchau. A Selene havia me dado um passe de ônibus de R$ 6,00 e alguns quebrados que daria para ir daqui até Rio Preto e sobrariam uns centavos. Fui até a rodoviária de Valença e enquanto esperava pelo ônibus, um cara com umas roupas meio estranhas se sentou ao meu lado. Começou a falar de música e de lugares, o papo não era tão ruim, dava para conversar até o ônibus chegar (faltavam 30 minutos). Ele era gente boa, mas creio que não batia muito bem da cabeça, logo ele disse que tinha um estúdio de som, não acreditei muito:
- Estúdio? Aqui, na rodoviária de Valença?
- É, vem aqui!
            Fiquei um tanto desconfiada, mas eu tinha certeza de que se ele tentasse algo, com apenas um soco eu desmontaria aquela pilha de ossos ambulante. Então eu o segui, entramos pelos fundos, passamos por um lugar que parecia um deposito de alguma coisa (lugar perfeito para um cara desmiolado da cabeça atacar uma lésbica). Continuei mesmo desconfiada, logo entramos realmente no estúdio de som. Tinha um outro cara lá que cuidava do lugar, começou a colocar um monte de músicas internacionais das antigas. Quase pirei de emoção, adoro rock americano das antigas (the Beatles, Roxette, Pixes...), fiquei lá para passar um pouco do tempo, eles tinham tudo que é musica de todos os tempos, maior maneiro.
O cara não queria que eu saísse dali, mas eu tinha que ir, então ele me levou de novo lá na frente e ficou do meu lado até o ônibus chegar. Fiquei brincando com a cara dele, disse que eu era transexual e ele ficou todo empolgado e me fazendo um monte de perguntas. Puta que pariu, é muito engraçado falar com essa gente que não bate bem das idéias. Meu ônibus chegou às duas e pouco. Rio Preto era bem perto de Valença, é a cidade divisa do Rio de Janeiro com Minas Gerais. Quando desci em Rio Preto, as placas dos carros já eram de Minas Gerais. Pôxa, consegui chegar até aqui, estou pisando em solo mineiro (Uhuu!!)
            Quando fui pedir informação:


- Moço, onde é o melhor lugar pra pegar carona para ir ate Juiz de Fora?
- O que? Você vai ir de carona?
- É!
- Ta maluca? Você é de onde?
- É eu sou um pouco maluca sim, ultimamente só tenho ouvido isso. Sou de Santa Catarina, Balneário Camboriú!
- Meu Deus! Você esta na casa de algum parente aqui?
- Não moço, estou andando de carona desde Santa Catarina! Qual o melhor lugar pra pegar carona?
- Mas é perigoso! Você não tem medo?
- Não tenho medo, não senhor! Qual o melhor lugar pra pegar carona?
- Nossa! Bom, você segue essa rua toda a vida, quando acabar a estrada de paralelepípedo e começar a de asfalto, é a estrada que vai pra Juiz de Fora!

            Nossa como é difícil me livrar das perguntas! Preciso de estratégias para isso parar. Comecei a andar, um sol tremendo, estava de calça Jeans, blusa e de óculos (o da Selene). Avistei um carro passando com a placa de Juiz de Fora, pôxa, se eu já estivesse lá na frente teria visto antes dele passar por mim. Logo avistei o mesmo carro, o motorista estava desembarcando, cheguei e perguntei:
- Moço, tu está indo para Juiz de Fora?
-Sim, mas só vou amanhã!
- Hum, obrigada. Falou!
            Continuei seguindo a rua, minha mochila estava pesando horrores e o sol estava me matando. Até que enfim cheguei ao início da estrada que iria para Juiz de Fora, caralho, tinha vacas para todo lado, a estrada praticamente deserta, estava eu imaginando bem aquela cena de filme de “faroeste”. Parei ali e esperei, demorou uns 3 minutos para passar um carro, pensei comigo ‘to ferrada’. Mas tudo bem, sempre tem a música para me confortar:

“Eu fico me perguntando até aonde eu posso chegar.
Os desafios, que no caminho eu irei encontrar
Pra enfrentar a vida, nunca pensei que fosse assim
Mas não importa, não há barreiras vou até o fim
Um plano misterioso...
Agarro um sonho e vou, eu vou procurar
Sigo em frente é meu destino não importa o lugar
Coragem eu terei, e nada por me deter eu vou, sem medo de nada
E eu enfrentarei, e derrotarei, todo aquele que for mal
Não descansarei, coragem eu terei
E nada pode me deter... eu vou, sem medo de nada!"

                Pena minha corrente com a memória RAM não estar mais aqui.
            Os carros passavam bem devagar pra ficar olhando pra louca pedindo carona ali no meio do nada, passou uns 10 minutos e ninguém parava, comecei a ficar impaciente quando demorou mais de 5 minutos. Comecei a andar, peguei a estrada e fui. Quando ouvia um barulho de carro vindo, logo parava e erguia o dedo. Estava muito quente, encontrei uma casa abandonada, entrei lá para colocar uma bermuda. Andei mais uns 5 minutos e me dei conta que havia esquecido os óculos lá na casa abandonada, com muito empenho e por ser uma lembrança, voltei correndo até lá. Como não passava ninguém, tirei a camisa e fiquei só de top e bermuda, continuei andando e cantando! Quando os carros passavam por mim, deviam achar que era uma bêbada louca. Já estava quase vendo miragem naquele sol, quando ouço o barulho do motor de um caminhão, pensei comigo ‘é esse ai, não posso deixar passar’. Pus-me no meio do asfalto e levantei os braços acenando. Graças a essa atitude maluca, o motorista encostou, nossa, a carona mais feliz que peguei até aqui. Era uma carga de animais mortos, estavam levando carne para um frigorífico ou coisa parecida. O motorista era evangélico e ficou o tempo todo falando no nome de Deus, e claro com as minhas experiências nada agradáveis de quando digo a um evangélico que não acredito em Deus, só ia concordando com todas as lorotas que ele dizia! O outro cara que estava com ele, era um moreno, muito gente boa, apesar de estar usando uma roupa toda ensangüentada, pois ele era o carregador.
            Cheguei a Juiz de Fora já eram umas 5 da tarde, os caras andaram um pouco a mais para me deixar num lugar mais fácil de pegar a próxima carona! Porra, essa galera é muito gente boa. Desci com a minha mochila pesada e com os óculos. Comecei a andar por uma rua até chegar em um posto, em que era certeza, que todo carro que passasse por ali, iria em direção a Ubá (tenho que chegar até Viçosa, que fica a uns 60 Km de Ubá e claro que não esqueceria de citar que Juiz de Fora é conhecida pela grande quantidade de gays que lá habitam). Fiquei lá na frente do posto com o dedo erguido, pelo menos nessa rua passam carros (ainda bem).
            Demorei uns 3 minutos para pegar uma carona que iria ate Ubá! O cara era muito chato, a voz dele me irritava e as coisas que ele ficava contando de quando ele tinha a minha idade, me davam vontade de vomitar! Fumei uma porrada de cigarros dele e depois entrei no papo de que era lésbica e tals. Logo ele parou o carro e fomos tomar uma cerveja, falando de mulher e de futebol. Homens são muito previsíveis! Mais a frente, paramos de novo e ele me ofereceu comida e bebida. Chegamos a Ubá eram umas 8 da noite ou mais (o que seria de mim sem o mapa que meu pai me deu?). Permaneci em um posto 24 Horas, que ficava na estrada chegando em Ubá. Já estava escuro e chovendo, não é bom pegar carona a noite, então decidi passar a noite ali mesmo. Liguei para meu pai que se encontrava em Santa Catarina, disse a ele que estava tudo bem, que estava na casa de um amigo. Depois liguei para minha mãe que se encontra no Paraná, Corbélia (perto de Cascavel), contei-lhe a mesma mentira. Não tinha o porquê deixá-los preocupados. Fiquei sentada em um banquinho, pensando e escrevendo. Depois fiquei conversando com um cara, já era quase meia noite (usava o celular só pra olhar as horas, acho uma coisa tão imprestável, para mim pelo menos).



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